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Ao final deste passo a passo você terá um número: o valor mínimo que cada hora faturável precisa render para que a sua retirada e os custos do trabalho caibam no ano. A conta é aritmética simples. O trabalho está em levantar dois dados — o que você precisa receber e quantas horas você realmente fatura — e em acompanhar o próprio tempo por duas semanas.

A primeira versão sai em menos de uma hora. A versão em que você pode confiar leva duas semanas de registro de tempo mais um mês fechado de conferência.

Antes de começar

Você precisa de quatro coisas em mãos:

  • o valor da sua retirada mensal desejada — o que deve sobrar para você, não o quanto você quer faturar;
  • a lista dos custos mensais do trabalho: assinaturas de software, internet, telefone, contador, desgaste de equipamento e o custo de formalização;
  • um registro de tempo, que pode ser uma planilha, um caderno ou um aplicativo de controle de horas;
  • o calendário do ano, para saber quantas semanas você pretende de fato trabalhar.

Você não precisa de sistema de gestão, de planilha pronta nem de um ano de histórico. Também não precisa saber os custos de cabeça: estimar no primeiro dia e corrigir depois faz parte do método.

Passo a passo

1. Separe retirada de faturamento

Faturamento é o que entra. Retirada é o que sobra para você depois que o trabalho pagou os próprios custos. A conta parte da retirada, porque é ela que precisa ser sustentada; misturar as duas produz um número inflado que você não consegue cumprir.

Some também uma provisão para os meses em que a receita não vem. Autônomo não tem férias remuneradas, não recebe 13º e não tem licença remunerada em caso de doença. Se você quer tirar um mês de folga por ano, são doze retiradas sustentadas por onze meses de trabalho.

2. Liste os custos do trabalho, inclusive o de formalização

Esses valores entram na conta antes da sua retirada e são, em boa parte, fixos: não caem quando você vende menos. O DAS do MEI é o exemplo mais claro. Segundo a Receita Federal, para os períodos de apuração de 2026 o DAS-MEI corresponde a R$ 81,05 de INSS (5% do salário mínimo de R$ 1.621,00), mais R$ 5,00 de ISS para quem é contribuinte desse imposto, ou R$ 1,00 de ICMS para quem é contribuinte do ICMS. Na prática: R$ 86,05 por mês para quem presta serviços e R$ 82,05 para quem revende mercadorias.

O salário mínimo de R$ 1.621,00 em 2026 foi fixado pelo Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, e é ele que define o INSS do MEI. Como essa base muda a cada ano, o DAS precisa ser reajustado na sua planilha em janeiro: o custo fixo não fica parado.

3. Entenda a diferença entre horas trabalhadas e horas faturáveis

Esta é a parte que decide o resultado. Hora trabalhada é tudo o que você passa no trabalho. Hora faturável é só o que gera receita, ou seja, a entrega que o cliente paga. O resto — prospecção, orçamento, proposta, e-mails de agendamento, emissão de nota, controle financeiro, estudo, treinamento e retrabalho — consome o mesmo dia e não aparece em nenhuma fatura.

A relação entre as duas se mede em percentual: horas faturáveis divididas pelas horas totais trabalhadas, vezes 100. É um indicador corrente na gestão de serviços prestados. A referência publicada pela Astrea, que cita o Legal Trends Report 2025, aponta taxa de utilização de 30% a 35% em escritórios de advocacia individuais — menos de um terço do dia gerando receita. A calculadora de taxa horária do Harvest, voltada a freelancers em geral, trabalha com a premissa de que muitos faturam de 50% a 70% do tempo e traz 60% como valor de partida do seu formulário. As duas referências medem populações diferentes e nenhuma delas é a sua. Por isso o passo seguinte é medir.

4. Meça o seu percentual faturável por duas semanas

Anote o que você fizer em dias úteis, durante duas semanas, com duração. No fim de cada dia, classifique cada registro como faturável ou não faturável com uma pergunta: essa atividade entrega valor direto ao cliente que está pagando? Se a resposta for não, é tempo não faturável.

Costumam cair no não faturável: organização interna, reunião administrativa, treinamento, configuração de ferramenta, emissão de boleto ou nota, controle financeiro, marketing, prospecção e ajustes de agenda. Some as horas faturáveis, divida pelo total e multiplique por 100. Duas semanas não representam o ano inteiro, mas já bastam para você parar de usar o divisor imaginário de 100%.

5. Converta a taxa em horas faturáveis por ano

Multiplique as semanas que você pretende trabalhar pelas horas semanais e pelo percentual faturável. Exemplo: 46 semanas úteis, 40 horas por semana e 50% de tempo faturável dão 46 × 40 × 0,5 = 920 horas faturáveis no ano. As 46 semanas já descontam férias, feriados e dias parados, e as 920 horas são o único número pelo qual você pode dividir a sua meta.

6. Divida a meta total pelas horas faturáveis

Some a retirada anual aos custos anuais do trabalho e divida pelo total de horas faturáveis. Exemplo com números redondos: retirada de R$ 6.000 por mês (R$ 72.000 no ano) mais R$ 1.500 por mês de custos do trabalho (R$ 18.000 no ano) somam R$ 90.000. Dividindo por 920 horas, o valor de partida é R$ 90.000 ÷ 920 = R$ 97,83 por hora faturável.

Compare com a conta mais comum. Dividir os mesmos R$ 90.000 pelas horas trabalhadas no ano (1.840) dá R$ 48,91 por hora. Dividir pela jornada cheia de 40 horas nas 52 semanas do ano (2.080 horas) dá R$ 43,27. A diferença entre R$ 97,83 e R$ 48,91 não vem de cobrar caro: vem de o divisor estar errado. Quem usa o divisor errado trabalha quase o dobro para chegar ao mesmo resultado.

7. Acrescente a margem e trate o resultado como piso

O número do passo 6 é ponto de equilíbrio: cobre exatamente o que você planejou, sem folga para mês fraco, imprevisto ou lucro. A calculadora do Harvest sugere aplicar 20% sobre esse valor para formar a tarifa recomendada — no exemplo, R$ 97,83 vira R$ 117,40 por hora. Ajuste a margem ao seu caso: receita instável pede mais folga do que contrato recorrente.

Trate o resultado como piso, não como teto. O valor por hora calculado mede quanto cada hora sua precisa render para a conta fechar; ele não decide se você cobra por hora ou por entrega — essa é outra decisão, e o piso continua valendo em qualquer uma delas.

8. Confira contra um mês fechado e revise

Depois de um mês de trabalho real, multiplique as horas efetivamente cobradas pelo seu valor-hora. Se o resultado ficou abaixo da meta somada aos custos, a conta foi otimista em algum ponto: o percentual faturável medido em duas semanas não se sustentou, ou apareceram custos que não estavam na lista. Refaça com o dado do mês e guarde o número antigo para comparar.

Como saber que deu certo

Três conferências resolvem:

  • Fechamento: horas faturáveis do período × valor-hora iguala ou supera a retirada mais os custos do mesmo período.
  • Teste inverso: o valor-hora que você pratica hoje, aplicado às horas que você conseguiu cobrar no último mês, pagou a sua retirada? Se não pagou, o preço em uso está financiando o cliente.
  • Aderência: as horas faturáveis medidas no mês fechado ficaram próximas do percentual que você projetou. Erro grande aqui indica que a projeção veio de estimativa, não de registro.

A tabela abaixo mostra o quanto o valor-hora de partida muda quando só o percentual faturável muda. Os totais a cobrir são os mesmos R$ 90.000 do exemplo e as horas trabalhadas continuam 1.840 no ano; o que varia é o divisor.

Percentual faturável Horas faturáveis no ano Valor-hora de partida
30% 552 R$ 163,04
40% 736 R$ 122,28
50% 920 R$ 97,83
60% 1.104 R$ 81,52
70% 1.288 R$ 69,88

Reduzir o tempo não faturável tem efeito parecido com aumentar o preço, e muitas vezes é mais fácil de conseguir.

Erros comuns

  • Dividir pela jornada, não pelas horas cobráveis. É o erro que derruba o valor-hora pela metade. Se o divisor é o total de horas que você passa trabalhando, o resultado descreve um emprego com salário fixo, não um trabalho autônomo.
  • Esquecer as semanas em que você não trabalha. O ano tem 52 semanas, mas ninguém fatura as 52. Feriados, férias, doença e períodos sem projeto entram no divisor.
  • Deixar custos de fora. DAS, contador, software, internet e reposição de equipamento consomem receita antes de virar retirada. Conta que ignora isso produz um piso irreal.
  • Tratar estudo e prospecção como tempo neutro. Eles não custam só o tempo: derrubam o percentual faturável e, por consequência, elevam o valor-hora necessário.
  • Confundir hora cobrada com hora recebida. Faturar não é receber. Cliente que atrasa seis meses transforma horas faturáveis em capital parado e reduz o que a hora realmente rendeu no ano.
  • Arredondar para baixo para não perder o cliente. O piso calculado é o ponto em que a conta fecha. Abaixo dele, o trabalho é financiado pela sua reserva ou pelo seu descanso.
  • Congelar o número. Salário mínimo, aluguel, assinaturas e ferramentas mudam de preço. O DAS do MEI, por exemplo, é reajustado conforme o salário mínimo: reviu o custo, refaça o divisor.

Variações

Sem CNPJ. Quem ainda não se formalizou não tem DAS na lista de custos, mas continua com obrigações tributárias sobre o que recebe, que devem ser conferidas na Receita Federal. O método não muda: retirada mais custos, divididos pelas horas faturáveis.

Renda extra, poucas horas por semana. Aqui o tempo não faturável pesa mais, porque os custos fixos e o tempo de organização não encolhem na mesma proporção das horas. Em geral, quem trabalha 10 horas por semana tem percentual faturável menor do que quem trabalha 40.

Serviço repetido. Se você entrega sempre a mesma coisa, medir o tempo por tipo de entrega mostra onde o processo ficou mais rápido e onde o retrabalho comeu a margem. O valor-hora calculado no início do ano deixa de ser o mesmo depois de dez entregas iguais.

Mais de um valor. Nada impede calcular pisos diferentes para tipos de trabalho diferentes, desde que cada piso cubra a retirada e a parte dos custos que cabe àquele trabalho. O que não funciona é manter um preço para o cliente que paga bem e outro que não fecha a conta.