Quem procurou “erupção solar” hoje encontrou manchetes sobre queda de internet e de celular. A previsão da NOAA para esta sexta-feira (2) é outra coisa: uma tempestade geomagnética de nível G1, o primeiro degrau de uma escala que vai até G5.

Resposta rápida

Nada na rotina de quem está no Brasil deve mudar. A NOAA projeta picos de Kp em 4,67 — faixa que o boletim da agência marca como G1 — em duas janelas: das 15h às 21h de hoje e das 15h às 18h de domingo (4), no horário de Brasília. Para esse nível, a agência descreve oscilações fracas na rede elétrica, impacto pequeno em satélites e auroras em latitudes altas. Não há previsão de interrupção de celular, internet ou energia no país.

O que merece atenção é o prazo de aviso, não o episódio de hoje. Os modelos em operação antecipam erupções com horas de antecedência; uma linha de pesquisa publicada em fevereiro aponta para avisos com semanas.

O que está chegando

A NOAA atribui o evento à instabilidade de um filamento solar em 28 de setembro — uma fita de plasma mantida suspensa acima da superfície por forças magnéticas que, ao se romper, lança material para o espaço. Esse material, uma ejeção de massa coronal, viaja em direção à Terra, mas deve atingir o planeta pela borda, no que um meteorologista espacial da agência descreveu, em declaração reproduzida pela CNN Brasil, como “impacto de raspão”.

O boletim de três dias da NOAA, emitido hoje às 9h35 no horário de Brasília, prevê Kp máximo de 4,67 entre 2 e 4 de outubro, com G1 provável hoje e no domingo. O sábado fica abaixo do nível de tempestade. A probabilidade diária de apagão de rádio entre R1 e R2 é de 10%; a de tempestade de radiação S1 ou maior, 1%. Nas 24 horas anteriores, o maior Kp observado foi 2, e nenhum apagão de rádio foi registrado.

De onde vem a tempestade

Erupções solares são explosões na superfície do Sol causadas por mudanças no campo magnético, com radiação que cobre das ondas de rádio aos raios X. A intensidade é medida em raios X e classificada nas letras A, B, C, M e X — X é a faixa mais energética. O Sol não gira como um corpo rígido: o equador gira mais rápido que as latitudes altas, e essa rotação diferencial estica e rompe as linhas de campo, liberando matéria e energia. O ciclo de atividade dura cerca de 11 anos.

Quando a explosão vem acompanhada de uma ejeção de massa coronal, o Sol lança plasma com campo magnético embutido. A magnetosfera desvia a maior parte dessa carga; o que chega à atmosfera superior produz a tempestade geomagnética. A intensidade depende das condições do vento solar nas proximidades da Terra, sobretudo de como o campo magnético carregado pela nuvem está orientado quando ela chega. O índice Kp resume a perturbação medida no solo e define o nível na escala G: G1 começa em Kp 5; G5, em Kp 9.

Vale separar as três escalas da NOAA, porque medem coisas diferentes: G, para tempestade geomagnética; S, para tempestade de radiação; e R, para apagão de rádio — este último provocado pela radiação da explosão, não pelo plasma que chega dias depois.

O que o nível G1 significa na prática

Pouco. Em G1, a NOAA descreve flutuações fracas na rede elétrica, impacto pequeno em satélites e auroras em latitudes altas. Eventos nesse nível são frequentes: cerca de 1.700 por ciclo solar de 11 anos. Os efeitos que costumam virar manchete — interferência em GPS, em rádio HF e oscilação de tensão em redes elétricas — aparecem com mais força perto dos polos, segundo a previsão da própria agência.

O Brasil está em latitude geomagnética baixa, longe da faixa onde a perturbação se manifesta de forma mais intensa. É por isso que a previsão não aponta consequência prática por aqui.

Onde a conta muda

G1 descreve o evento de hoje, não o pior cenário possível. O mesmo mecanismo produziu o Evento Carrington, em 1859, quando auroras foram vistas em Cuba e a fiação telegráfica falhou, e a tempestade de março de 1989, que interrompeu o fornecimento de energia em Quebec por cerca de 12 horas. A diferença entre aqueles episódios e um G1 está na energia que chega, não no fenômeno.

Por isso o prazo de aviso importa. A pesquisa do Southwest Research Institute com o centro de pesquisa atmosférica da NSF (NCAR), publicada no Astrophysical Journal em fevereiro de 2026, treinou uma rede neural informada por física — chamada PINNBARDS — para ligar o que se observa na superfície do Sol à dinâmica magnética profunda, na camada conhecida como tacoclina. Os autores descrevem o trabalho como um primeiro passo para prever onde e quando regiões ativas capazes de gerar grandes erupções vão emergir, com semanas de antecedência. Hoje, dizem, as ferramentas em operação só se tornam preditivas horas antes da erupção. Antecedência maior é o que permitiria a operadores de redes elétricas, sistemas de GPS e missões espaciais se preparar.

Pontos de atenção

  • A previsão é volátil. O Kp é estimativa e pode ser revisado ao longo do dia: o evento pode ficar abaixo de G1 ou passar do previsto. Vale olhar o boletim atualizado, não a manchete da véspera.
  • As fontes divergem sobre a segunda janela. A CNN Brasil atribui o pulso de domingo a uma nova ejeção de massa detectada logo depois da primeira; o boletim da NOAA atribui a janela ao enfraquecimento da ejeção de 28 de setembro somado a um feixe de vento solar vindo de um buraco coronal. As duas leituras apontam para o mesmo nível G1.
  • Tempestade geomagnética não é apagão de internet. A escala G mede perturbação do campo magnético; a previsão não indica interrupção de celular ou banda larga.
  • Nível global não é impacto local. G1 classifica a perturbação do campo magnético como um todo; o que se percebe depende da latitude e da infraestrutura exposta.

Veredito

Para quem está no Brasil, a erupção que chega hoje não pede providência: é um evento G1, com efeitos concentrados em latitudes altas e sem previsão de impacto em celular, internet ou rede elétrica. O motivo de acompanhar é outro. Enquanto o aviso para os eventos perigosos for contado em horas, o que separa uma tempestade menor de uma de escala Carrington é o tempo que os operadores tiveram para agir — e é esse prazo que a pesquisa recente tenta esticar.