Quem foi
João Francisco dos Santos nasceu em Pernambuco — as fontes divergem entre 1900 e 1904 — e chegou ao Rio de Janeiro ainda menino. Ficou conhecido como Madame Satã, nome que também aparecia encurtado como Satã, além dos apelidos de palco Jamacy e Mulata Balacochê e da alcunha de rua Caranguejo. Era negro e pobre, e essa informação explica quase todo o resto: a Lapa em que circulou era o bairro dos cabarés, dos sambistas e dos homens que a polícia prendia por vadiagem. Ele viveu ali como capoeirista, cozinheiro, dançarino de cabaré, vendedor ambulante e segurança de boate.
Não se trata de personagem de folclore. Há registro dele em processos judiciais, em fichas policiais, em entrevistas e em livros. Passou boa parte da vida adulta preso, cumpriu penas longas em Ilha Grande e morreu em hospital, depois de ser levado para lá por jornalistas do Pasquim. O que se sabe dele, porém, passa quase sempre pela voz dele mesmo.
O que a documentação sustenta
O levantamento mais detalhado dos processos está em artigo das pesquisadoras Myrian Sepúlveda dos Santos e Yasmim Issa, publicado na revista Vibrant em 2017. Segundo o texto, João Francisco foi processado 13 vezes por agressão, quatro por resistência à prisão, duas por receptação, duas por furto, uma por atentado ao pudor e uma por porte de arma. Entre 1928 e 1965, ano em que terminou a última pena, ficou 28 anos atrás das grades e nove em liberdade.
A primeira condenação veio depois de uma briga com um guarda noturno, que morreu, e de ele ter sido atacado pelo outro. Ele tinha 24 anos. O artigo registra a pena de 16 anos e o primeiro período de prisão na Colônia Correcional de Dois Rios, em 1928. No caso da briga na porta do Cabaré Brasil, em 1947, a sentença foi de três anos e oito meses, e ele saiu em outubro de 1948, tendo cumprido dois. Em 1949, foi condenado por portar um punhal e, meses depois, a dois anos e seis meses e multa por tentativa de venda de joias; preso em março de 1953, saiu dois anos depois. Em julho de 1955, recebeu seis anos e quatro meses por rufianismo e agressão, conforme o jornal A Luta Democrática, citado no artigo.
Na prisão, trabalhou como cozinheiro na casa do diretor da colônia e depois na lavanderia, que passou a chefiar. Documentos citados no artigo mostram que ele viveu fora das celas e que, solto, fixou-se em Vila do Abraão. Os autos também registram pedidos de autorização judicial para pagar o internato e uma consulta médica da filha de Maria Faissal, com quem viveu.
Em 1971, o Pasquim publicou a entrevista que o trouxe de volta ao noticiário. No ano seguinte, o livro Memórias de Madame Satã, narrado por ele a Sylvan Paezzo, saiu pela Lidador. A causa da morte, segundo o artigo da Vibrant e a reportagem do Sesc São Paulo, foi câncer de pulmão; ele foi enterrado em Ilha Grande.
O que as fontes disputam
Nascimento. A reportagem da revista do Sesc São Paulo, de 2015, afirma que ele nasceu em fevereiro de 1900, em Glória do Goitá, no interior de Pernambuco. O artigo da Vibrant registra outra coisa: nos processos analisados, o ano de nascimento aparece como 1904. Nas memórias, ele dizia ter nascido no mesmo ano em que o século começou. A divergência permanece aberta.
Chegada ao Rio. O Sesc data a mudança em 1908, um ano depois da morte do pai, Manoel Francisco dos Santos. O relato que chegou a Paezzo não traz data: conta que, aos oito anos, ele foi trocado pela mãe por uma égua, trabalhou para um comerciante, fugiu e foi acolhido por uma dona de pensão no Rio. As duas versões não se encaixam.
Origem do nome. Para o Sesc, Madame Satã vem da fantasia que ganhou o primeiro lugar no concurso de baile de carnaval do Teatro República, em 1938. Para o artigo da Vibrant, o apelido foi dado por um policial, que associou a fantasia à atriz do filme americano Madam Satan; ele teria recusado o nome no início e o aceitado depois, com ironia.
Filhos. O Sesc e o livro de Rogério Durst falam em seis filhos adotivos. O artigo da Vibrant é mais cauteloso: diz que os depoimentos ao Pasquim se contradizem, que há pouca informação sobre as relações familiares e que o cuidado documentado é com a filha de Maria Faissal. O número seis é o que ele mesmo afirmou.
Mortes e crimes. Sobre o guarda noturno, o artigo da Vibrant registra a condenação a 16 anos pelo episódio, ocorrido depois de ele ter sido atacado; o Sesc, citando Durst, afirma que houve absolvição por legítima defesa. A morte do sambista Geraldo Pereira, em maio de 1955, é outra história: uma versão corrente diz que ele morreu de um soco desferido por Madame Satã, o que, segundo o Sesc, não foi confirmado na época. A resenha publicada na Physis descreve o episódio como parte do que o antropólogo Gilmar Rocha chama de mito-história. A mesma resenha informa que ele foi considerado mitômano, que alguns relatos de prisão se referem a períodos em que não estava preso e que crimes assumidos por ele foram cometidos por outros.
Morte. A Vibrant afirma 1975. O Sesc afirma 1976, aos 76 anos, depois de uma internação como indigente em hospital de Angra dos Reis e da transferência para um hospital em Ipanema pelo cartunista Jaguar e amigos. O total de anos presos também varia: 28 anos na Vibrant; 27 anos e oito meses, segundo o livro de Rogério Durst citado pelo Sesc; 27 anos em 29 processos na notícia do Diário do Rio sobre o tombamento do túmulo.
O que virou lenda
A lenda tem autor conhecido. A professora Paula Mendes Lacerda, na resenha que publicou na Physis em 2005, escreve que o maior contador de histórias sobre Madame Satã foi ele próprio. O artigo da Vibrant chega à mesma conclusão por outro caminho: nos depoimentos, ele ironizava as próprias tragédias e romantizava episódios que teriam passado despercebidos.
A entrevista ao Pasquim de 1971 é o ponto em que isso vira material impresso. Os jornalistas o apresentaram como o homossexual mais macho do Rio, e o artigo da Vibrant observa que a conversa não menciona as performances de travesti que ele fazia nos palcos da Lapa desde os anos 1930 nem sua ligação com o universo que a época chamava de feminino. O Satã do Pasquim é uma versão editada, e foi essa versão que a imprensa repetiu.
Nair Mattoso, moradora da Ilha Grande entrevistada pelas pesquisadoras, contou que ele anunciava a morte de vizinhos e conhecidos que seguiam vivos; nas palavras dela, ele matou todo mundo. O livro de Durst, de 2005, arrumou a narrativa em uma trajetória coerente. O filme de Karim Aïnouz, de 2002, foi por outro caminho e apresentou um João Francisco ambíguo, que oprimia quem dependia dele, sem compromisso com as biografias existentes.
O Rio de Janeiro daquele tempo
Sem a cidade, o perfil vira anedota. A Lapa em que João Francisco circulou era o bairro dos cabarés e da Praça Tiradentes, onde os malandros se reconheciam pelo terno de linho claro e pelo sapato de duas cores, e muitos sabiam capoeira. O artigo da Vibrant descreve a rotina do bairro: a polícia batia, humilhava e prendia quem vivia do comércio informal da região mesmo sem crime comprovado.
Para os homossexuais não havia pena específica no Código Penal, segundo o historiador James Green, citado no mesmo artigo; a prisão vinha por atentado ao pudor e por supostas contravenções de ordem pública. A partir do Código Penal de 1940, as medidas de segurança passaram a poder ser aplicadas pela periculosidade do réu, e não apenas pela gravidade do fato, o que, no caso dele, significava punir o que a pessoa era. O código que ainda regia os primeiros anos de sua vida adulta era o dos Estados Unidos do Brasil, promulgado pelo Decreto nº 847, de 11 de outubro de 1890, conforme o texto publicado no portal da Câmara dos Deputados.
O período é o da virada de 1930. Com Getúlio Vargas, houve nova onda de repressão a casas de jogos, pensões e cabarés, e o Estado Novo apertou o cerco à boemia. As autoridades policiais e judiciais da época bebiam de teorias positivistas e eugenistas: criminologistas atribuíam tendência criminal a negros e mestiços e tratavam a homossexualidade como doença. A resenha da Physis lembra que a caça aos vadios vinha de antes, da reforma Pereira Passos, e que o Instituto de Identificação, criado em 1933, produziu estudos de antropologia criminal sobre homossexuais fichados pela polícia. Quem era enquadrado por vadiagem, prostituição ou capoeira podia acabar em colônias correcionais isoladas, como a de Dois Rios, onde os presos ficavam esquecidos.
Onde estão os registros
Os autos criminais estão no Arquivo Nacional. O artigo da Vibrant cita o caso 6262/47, do inventário do Tribunal Criminal do Rio de Janeiro, e os casos 3.416/56 e 17.377/56, no fundo do Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Os depoimentos de guardas, presos e moradores da Ilha Grande foram coletados por Myrian Sepúlveda dos Santos e Yasmim Issa entre 2010 e 2015.
Em livro, o relato fundador é Memórias de Madame Satã, de Sylvan Paezzo (Lidador, 1972). Gilmar Rocha assinou O Rei da Lapa: Madame Satã e a Malandragem Carioca (7 Letras, 2005), e Rogério Durst, Madame Satã: com o diabo no corpo (Brasiliense, 2005). As entrevistas do Pasquim saíram em 1971 e, depois da morte dele, em 1976.
No cinema, Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz, com Lázaro Ramos, reconta a Lapa boêmia antes do apelido e a repressão policial do período. O túmulo, no cemitério da Vila do Abraão, entrou em processo de tombamento pelo Iphan: a primeira visita técnica foi feita no fim de agosto de 2025, e o inventário pode levar até cinco anos, segundo o Diário do Rio. Se sair, será o primeiro bem de temática LGBTQIA+ protegido pelo instituto no país.
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