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A mudança de tarefas já aparece com mais nitidez em funções administrativas, de apoio e de entrada no mercado de trabalho, e em ocupações cognitivas muito digitalizadas: contabilidade, finanças, análise de informação, comunicação, parte do trabalho jurídico e desenvolvimento de software. Ocupações manuais e contextuais, como construção civil, agricultura e trabalho manual de campo, ficam no extremo oposto das medidas de exposição. As análises consultadas não apontam eliminação de ocupações inteiras; descrevem recomposição de tarefas. E não existe, até esta verificação, projeção oficial de vagas por ocupação para o Brasil.

O que está em jogo

A IA generativa atua tarefa por tarefa. Uma ocupação reúne dezenas de atividades, e a mesma ferramenta pode dar conta de boa parte delas em uma função e de quase nenhuma em outra. Por isso a medição de impacto passou a ser feita tarefa por tarefa, com classificações ocupacionais padronizadas — a ISCO-08, usada pela OIT, e a CBO, usada no Brasil — em vez de listas de profissões.

O indicador que resulta disso é a exposição: quanto das tarefas típicas de uma ocupação uma IA generativa conseguiria executar. Exposição informa onde a tecnologia pode incidir. Não informa o que já aconteceu nem o que vai acontecer. Para localizar a mudança que já aparece, três medidas precisam ser lidas juntas: exposição potencial por tarefa, efeito medido sobre ocupação e renda, e adoção registrada dentro das empresas.

O que a evidência mostra

Funções administrativas, de apoio e de entrada

É o sinal mais consistente nas fontes consultadas. No índice global da OIT com o instituto polonês NASK, publicado em maio de 2025, as ocupações administrativas seguem com a maior exposição à IA generativa. O trabalho parte de 29.753 tarefas da classificação ocupacional polonesa, com validação de especialistas e previsões de modelos de IA, e estima que um em cada quatro empregos no mundo está em ocupação com alguma exposição. Em países de renda alta, essa fatia chega a 34% do emprego; em países de renda baixa, a 11%. A OIT registra que os números refletem exposição potencial, não perdas reais de emprego.

No Brasil, a FGV Ibre estimou que quase 30 milhões de trabalhadores — 29,6% da população ocupada no terceiro trimestre de 2025 — estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa, e cerca de 5,2 milhões no gradiente mais elevado. A exposição é maior entre mulheres, jovens, trabalhadores mais escolarizados, na região Sudeste e no setor de serviços, em especial informação e comunicação e serviços financeiros.

O efeito medido aparece sobretudo na porta de entrada. Em estudo com a PNAD Contínua de 2022 a 2025 e exposição congelada antes da difusão das ferramentas, Daniel Duque, da FGV Ibre, encontrou queda de ocupação e de renda concentrada em jovens de 18 a 29 anos em ocupações mais expostas, como funções administrativas, de apoio e de suporte: cerca de 5% menos chance de estar empregado e perda de renda relativa de até 7%. Trabalhadores mais velhos, com rotina de decisão, apareceram pouco afetados no período analisado.

Ocupações cognitivas digitalizadas

A OIT observa que as capacidades recentes da IA generativa elevaram a exposição de ocupações cognitivas fortemente digitalizadas em setores como mídia, software e finanças, além do bloco administrativo. Para a carreira em programação, a decisão tem critérios próprios e está em Programador ainda vale a pena como carreira em 2026?

No Brasil, o relatório do PRISMA, observatório da ESPM, aplicou o índice internacional AIOE aos microdados da PNAD Contínua e cobriu mais de 90 milhões de trabalhadores em 410 ocupações. As ocupações com índice acima de 113, bem acima da média nacional, incluem matemáticos, contadores, economistas, juízes, dirigentes financeiros, publicitários e professores universitários. As pontuações menores, entre 73 e 85, ficaram com pedreiros, trabalhadores da construção civil, agricultores, trabalhadores manuais da lavoura e bailarinos.

Os dois extremos têm a mesma natureza: exposição potencial calculada por tarefa, não mudança observada no emprego. O relatório aponta que a exposição da força de trabalho brasileira cresceu ao longo da última década, com estabilidade no período da pandemia, e que o nível de 2025 foi o mais alto da série. Trabalhadores com maior escolaridade e renda, em estados mais urbanizados, aparecem entre os mais expostos.

Dentro das empresas, a adoção entra por processos administrativos

A pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br (NIC.br), mostra que 17% das empresas brasileiras com dez ou mais funcionários usaram alguma solução de IA em 2025, ante 13% em 2024. Entre as grandes, com mais de 250 funcionários, a proporção passou de 38% para 50%; entre as pequenas, de 10% para 15%. Ferramentas de linguagem natural lideram a expansão: a geração de linguagem natural subiu de 20% para 30% entre as empresas que usam IA, e a mineração de texto cresceu de 13% para 51% em alojamento e alimentação e de 14% para 40% em artes, cultura, esporte e recreação. Do total de empresas que usam IA, 80% compraram software pronto e 60% contrataram fornecedores externos.

O dado é de empresa, não de ocupação, e serve para mostrar em que rotina a ferramenta entrou. Para Leonardo Melo Lins, coordenador da pesquisa, o avanço corresponde mais a uma adaptação de processos administrativos e atividades internas do que a uma mudança estrutural na forma de operar.

O que cada medida permite concluir

Medida Fonte O que mostra O que não permite concluir
Exposição potencial por tarefa OIT e NASK; ESPM; FGV Ibre Quanto das tarefas típicas de uma ocupação uma IA conseguiria executar Que a ocupação vai encolher ou desaparecer
Efeito sobre ocupação e renda Estudo de Daniel Duque (FGV Ibre) Mudança medida em emprego e remuneração de grupos mais e menos expostos O que ocorrerá depois de 2025; o resultado cobre um período curto
Adoção por empresas Cetic.br (TIC Empresas 2025) Onde a ferramenta entrou na rotina das empresas Quantas ou quais ocupações foram alteradas

Onde a conta muda

Exposição alta, isolada, não define risco. O estudo da FGV Ibre cruza exposição com complementaridade — o quanto a IA ajuda o trabalhador em vez de executar a tarefa no lugar dele — e, com base em evidência do FMI, aponta algo em torno de 20% dos ocupados no grupo de alta exposição e baixa complementaridade, o mais vulnerável a perda de emprego, e pouco mais de 20% no grupo de alta exposição e alta complementaridade, com potencial de ganho de produtividade e de salário.

Senioridade altera o resultado medido até aqui: o efeito sobre emprego e renda aparece nas funções de entrada, enquanto ocupações com mais decisão, contexto e relação com pessoas registraram efeito pequeno no mesmo período.

Lugar e setor também pesam. A exposição é maior no Sudeste e em serviços de informação e comunicação e financeiros; estados dependentes de agricultura e construção civil registram menor sensibilidade. O porte da empresa influencia a adoção: 50% nas grandes contra 15% nas pequenas.

Nada disso se transporta automaticamente para o Brasil. O índice da OIT foi construído sobre tarefas da classificação polonesa e calibrado por especialistas internacionais, e a diferença entre 34% de exposição em países de renda alta e 11% em países de renda baixa mostra que o mesmo indicador não vale igual em contextos distintos. O Ministério do Trabalho e Emprego anunciou em maio de 2026 um projeto para analisar a exposição das ocupações da CBO com a metodologia da OIT, mas não havia resultados publicados até esta verificação.

Pontos de atenção

  • Não existe ranking oficial de profissões mais afetadas pela IA no Brasil. O que existe são estimativas de exposição produzidas por instituições de pesquisa e um projeto do MTE em andamento.
  • Exposição não é impacto. A OIT afirma que a maior parte das ocupações reúne tarefas que ainda exigem intervenção humana e que o desfecho mais provável da exposição é a transformação do trabalho.
  • Índice de exposição não é previsão de vagas. Uma pontuação alta indica que as tarefas são alcançáveis pela tecnologia, não que os postos vão diminuir.
  • Os estudos medem janelas curtas, de 2022 a 2025, e efeitos iniciais. Eles localizam onde a mudança começou; não indicam o ponto de chegada.
  • Material de consultoria e manchetes que anunciam desaparecimento ou crescimento garantido de profissões não encontram base nas fontes oficiais disponíveis.

Veredito

Se o seu trabalho é administrativo, de apoio ou de entrada, com muita leitura, escrita, organização de documento e tratamento de dado, é aí que a recomposição de tarefas aparece primeiro. O movimento prático é assumir as partes que dependem de julgamento, contexto, negociação e responsabilidade — justamente as que a medição atual deixa de fora. Em ocupações manuais e contextuais, a mudança medida hoje é menor, o que não diz nada sobre a próxima década.

Quem está escolhendo carreira deve olhar o conteúdo das tarefas, não o nome da profissão. Como escolher uma profissão sem olhar só para salário? trata exatamente desse critério. Para quem já está em uma ocupação exposta e pensa em transição, Vale a pena mudar de carreira depois dos 30? reúne os critérios dessa decisão.