Resultado
A conversa de remuneração termina bem quando você sai dela com três coisas registradas: um valor, uma data e o critério que a empresa usou para decidir. Se o aumento não vier, o critério e a data da próxima revisão são o resultado possível — e continuam valendo mais do que uma resposta vaga.
O roteiro abaixo cobre a preparação, a condução da conversa e o que fazer com a resposta, inclusive quando ela é não.
Antes de começar
Reúna quatro coisas antes de pedir a reunião:
- Uma referência de mercado com fonte identificável. Sem isso, o pedido vira preferência pessoal.
- O piso que se aplica a você — salário mínimo e o que estiver na convenção ou no acordo coletivo da sua categoria.
- O registro do que mudou no seu trabalho desde o último reajuste: escopo, responsabilidades e entregas, com datas.
- O seu número de saída, calculado com antecedência: o valor abaixo do qual você não aceita continuar.
Defina também o que você fará na semana seguinte se a resposta for não. Isso não é blefe: é saber o que você faz com ou sem aumento.
Passo a passo
Passo 1 — Monte a referência de mercado com dado oficial
O IBGE publica, na PNAD Contínua, o rendimento médio mensal real das pessoas ocupadas. No 2º trimestre de 2026, a média nacional era de R$ 3.621 no trabalho principal, mas o número varia muito por unidade da federação.
| Local | Rendimento médio mensal real (2º tri/2026) |
|---|---|
| Brasil | R$ 3.621 |
| Maranhão | R$ 2.218 |
| Bahia | R$ 2.469 |
| São Paulo | R$ 4.336 |
| Rio Grande do Sul | R$ 4.009 |
| Distrito Federal | R$ 6.007 |
É a média de todas as pessoas ocupadas com rendimento, não o salário da sua função nem um piso. Serve para dar ordem de grandeza e para mostrar que "salário de mercado" sem recorte geográfico não quer dizer nada. Nessa tabela, o recorte disponível é por sexo e por unidade da federação — não por cargo nem por empresa.
Se você for usar guias salariais de consultorias ou portais, verifique antes se eles informam fonte, tamanho da amostra e período. Quando isso não está declarado, o número não sustenta o pedido: trate como pista, nunca como argumento principal.
Passo 2 — Confirme o piso e a regra que se aplica a você
Salário mínimo. A partir de 1º de janeiro de 2026, o valor é de R$ 1.621,00. O salário mínimo é um dos direitos que nem convenção coletiva pode suprimir ou reduzir.
Convenção ou acordo coletivo da sua categoria. É onde costuma estar o piso acima do mínimo. A CLT exige que cópias autênticas do instrumento fiquem afixadas de modo visível na sede do sindicato e nos estabelecimentos das empresas abrangidas, então o sindicato e o RH são os primeiros lugares para confirmar. Confira também a vigência: a duração máxima é de dois anos e é vedada a ultratividade, ou seja, o instrumento vencido não continua valendo por si.
Plano de cargos e salários da empresa. Se existe quadro de carreira ou plano de cargos e salários, a regra de equiparação salarial não prevalece e as promoções seguem o que o plano define. Sem plano, vale a equiparação: função idêntica e trabalho de igual valor — mesma produtividade e mesma perfeição técnica, com diferença de tempo de serviço para o mesmo empregador não superior a quatro anos e de tempo na função não superior a dois — prestado ao mesmo empregador e no mesmo estabelecimento dá direito a igual salário, sem distinção de sexo, etnia, nacionalidade ou idade. A comparação só vale entre colegas contemporâneos no cargo.
Se a empresa tem 100 ou mais empregados, ela é obrigada a publicar semestralmente relatórios de transparência salarial e de critérios remuneratórios, com dados anonimizados. Vale procurar o relatório antes da conversa: ele mostra os critérios que a própria empresa declarou seguir.
Passo 3 — Transforme a referência em três números
Com a referência e o piso na mão, defina o valor que você pede, o valor que você aceita e o valor abaixo do qual você não fecha. Leve os três para a conversa. O terceiro não é para ser dito; é para ser respeitado.
Duas regras da CLT limitam o que pode ser combinado. O contrato individual pode ser livremente estipulado, desde que não contrarie as normas de proteção ao trabalho, os contratos coletivos aplicáveis e as decisões das autoridades competentes. E a alteração das condições do contrato só é lícita por mútuo consentimento, desde que não resulte, direta ou indiretamente, prejuízo ao empregado, sob pena de nulidade da cláusula.
Cuidado com a troca de salário por benefício. A CLT define o que integra o salário — importância fixa estipulada, gratificações legais e comissões — e o que não integra: ajuda de custo, auxílio-alimentação (vedado o pagamento em dinheiro), diárias, prêmios e abonos não se incorporam ao contrato nem são base de encargo trabalhista e previdenciário. Assistência médica, previdência privada, seguro de vida e transporte também não são considerados salário. Isso significa que trocar parte do salário por esses itens reduz a base de cálculo de férias, décimo terceiro, FGTS e contribuição previdenciária. Faça a conta antes de aceitar. É também por isso que a empresa pode preferir esse caminho: Quanto custa ter um funcionário além do salário? detalha o que incide sobre a folha.
Passo 4 — Monte o argumento em fatos verificáveis
O que sustenta um pedido é a diferença entre o que o seu cargo exigia quando o salário foi definido e o que ele exige hoje. Liste, com data, as responsabilidades que você assumiu, as entregas concluídas e os resultados que outra pessoa consegue conferir. "Sou dedicado" e "estou sobrecarregado" não são critérios que a empresa consiga aplicar.
Se a sua remuneração tem parte variável, confira onde o critério está escrito: convenção e acordo coletivo podem dispor sobre remuneração por produtividade e por desempenho individual. Se o critério existe, o pedido deve ser feito em cima dele.
Passo 5 — Escolha o momento e o interlocutor
Peça a conversa quando o critério de decisão puder ser aplicado: no ciclo de avaliação, na revisão de orçamento ou na data-base da categoria. Marque com quem decide. Se o seu gestor não aprova orçamento, pergunte explicitamente quem aprova e em quanto tempo.
Na abertura, diga em uma frase o que você quer e o número. Não peça "um aumento" e espere que a outra parte adivinhe a faixa.
Passo 6 — Conduza a conversa
- Apresente o pedido com o número e a justificativa em fatos. Uma faixa estreita funciona melhor do que um número solto: ela mostra o que você considera aceitável.
- Depois de falar o número, fique quieto. Quem preenche o silêncio com desconto negocia contra si mesmo.
- Pergunte qual critério a empresa usa para decidir e qual é o limite do que cabe no orçamento. A resposta define o que você pode pedir em vez de salário.
- Se a resposta for não, peça o motivo específico e o que precisaria mudar. "Não dá" não é critério.
Passo 7 — Trate a resposta por escrito
Se veio o aumento, confirme por escrito o valor, a data de vigência e se ele incide sobre o salário base ou sobre uma parcela que não integra a remuneração. O que integra o salário entra na base de férias, décimo terceiro, FGTS e contribuição previdenciária; o que não integra, não.
Se não veio, registre o critério informado, o prazo e a data da próxima revisão. Proposta de redução de salário fora de instrumento coletivo é nula; a redução só é possível por convenção ou acordo coletivo e, nesse caso, o instrumento precisa prever proteção contra dispensa imotivada durante a sua vigência.
Se você identificar diferença salarial por sexo, raça, etnia, origem ou idade, o pagamento das diferenças não afasta o direito à indenização por dano moral, e a multa aplicável corresponde a dez vezes o valor do novo salário devido, dobrada na reincidência.
Como saber que deu certo
Deu certo se você sai com valor, data e critério registrados, e se o valor combina com a regra que a empresa aplica — plano de cargos, piso da categoria ou equiparação. Não é sucesso arrancar o maior número da conversa e descobrir depois que ele não entra na base de cálculo.
Quando a resposta é não, o sinal de que a conversa funcionou é ter saído dela com um critério verificável e uma data. Se nem isso veio, o problema não foi o pedido: foi o interlocutor ou o momento.
Erros comuns
- Pedir percentual sem nenhuma referência verificável, ou usar um número de portal sem saber a amostra e o período.
- Usar necessidade pessoal como argumento. Ela pode decidir por você, não pela empresa.
- Aceitar aumento embutido em parcela que não integra a remuneração e reduzir a base de férias, décimo terceiro, FGTS e contribuição.
- Ancorar o pedido em um colega sem conferir os requisitos da equiparação: mesmo estabelecimento, contemporaneidade no cargo e os limites de tempo de serviço e de função.
- Insistir na equiparação quando a empresa tem plano de cargos e salários, que afasta essa regra.
- Blefar com uma proposta que não existe. Se a empresa aceitar a sua saída, você perde as duas.
- Deixar tudo no verbal. O que não está registrado não existe para o RH no ano seguinte.
Variações
Negociação na entrada. É a única janela em que o valor não depende de revisão interna. O piso e a convenção já se aplicam antes de você assinar, e o que não estiver escrito no contrato tende a não existir depois.
Aumento dentro da empresa. Depende do ciclo de avaliação e do plano de cargos. O argumento útil é a mudança de escopo do seu trabalho, não o custo de vida.
Quando a empresa oferece formação em vez de salário. Vale avaliar a proposta como investimento, com os mesmos critérios de qualquer decisão de estudo: Certificação profissional vale a pena?
Quem trabalha como autônomo ou PJ. Não há piso de categoria nem equiparação salarial a invocar: a referência é o preço da sua hora ou do seu projeto, e a conversa é sobre escopo e prazo. Como calcular o valor da sua hora de trabalho? mostra como chegar a esse número.
Feche a conversa com um próximo passo datado: o que você vai entregar, o que a empresa vai verificar e quando vocês voltam a conversar. Peça a confirmação por escrito no mesmo dia, enquanto o combinado ainda está claro para os dois lados.
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